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ARTIGOS

SAṄKALPA

Instrutor: André De Rose

सङ्कल्प
Saṅkalpa

"Nenhum discurso pode ser mais forte
que a prática que ele evoca"
Andre De Rose

SAṄKALPA DE ANO NOVO: MENTALIZA-AÇÃO

Saṅkalpa significa "construção mental", mas pode ser traduzido como "resolução interior", "plano de ação", "propósito", "objetivo", "mentalização". É a repetição de uma frase curta, quase telegráfica, mas repleta de significado, composta por uma afirmação breve, positiva, objetiva, no momento presente e verdadeira. Por exemplo a frase "não sou mais gordo" é objetiva, é no momento presente, porém é negativa e não é verdade. O melhor seria dizer "emagreço", ou então, se o tema é a força, "sou forte" em vez de dizer "eu não sou fraco".

Um ciclo completo de Saṅkalpa pode durar entre uma a duas semanas, com um mínimo de dez a quinze sessões sucessivas. As palavras escolhidas para a focalização do pensamento devem ser fáceis de memorizar e seis ou sete delas bastam para imprimi-las no pensamento. Devem ser poucas, mas sempre as mesmas. Basta uma frase curta como: "aumento meu raciocínio" ou "lembro tudo que preciso". Importante repetir até que aos poucos ganhe a força e o sentido de uma verdade (satya).

Não precisa de forma alguma verbalizar o Saṅkalpa. Basta que inspire longa e silenciosamente, e enquanto estiver expirando repita mentalmente a sua frase. Quando for escolher uma locução para outra pessoa, lembre-se que as palavras devem ser definitivas e assertivas, sem margem para dupla interpretação.

Inclusive elas devem estar sempre no presente, pois, para nossa mente subconsciente, só existe o presente. Ela não concebe o que não está aqui e agora, pois só vivencia o momento atual. Somos seres presenciais, só vivemos no agora, portanto, usar construções como "amanhã", "mais tarde", "depois" ou "a seguir" nunca se conseguirá o Saṅkalpa. Pensar em objetivos impossíveis como "quero atravessar paredes" ou "quero voar" podem transformar facilmente o seu Saṅkalpa em vikalpa (alucinação).

Para escolher corretamente o seu sankalpa recolha-se em um ambiente silencioso e mergulhe profundamente em auto-observação. Pense um pouco sobre si mesmo, como é a sua vida, quais são as suas características mais marcantes, o que você não gosta na sua personalidade, quais são os seus erros mais freqüentes, quais são as suas necessidades mais urgentes. Seja sincero consigo mesmo. Assim você alcançará o que chamamos de Uttara Saṅkalpa.

O Uttara Saṅkalpa é consolidado quando você cultiva atitudes e comportamentos mentais antagônicos que se sobrepõem de alguma forma aos antigos condicionamentos (vāsanā). O Saṅkalpa é um agente facilitador que deve ser infiltrado nas estruturas profundas do inconsciente, como se fosse um programa de computador ou um "vírus" benéfico que altera a programação anterior, fortalecendo a estrutura mental, dando um novo sentido e propósito à nossa existência, ajudando-nos a cumprir melhor o nosso svadharma ou dharma pessoal.

Tanto a palavra proferida quanto a pensada fica gravada no ākāśa e tem a capacidade de controlar profundamente a nossa vida presente e futura. Cada palavra ociosa é registrada, do mesmo modo que a palavra proferida. O pensamento apropriado leva à ação apropriada, e disso emana ānanda - a suprema felicidade.

Quem vivencia seu próprio dharma está feliz, pois percebe que está no caminho, está fazendo a coisa certa, gozando de alegria e paz interior. Sempre que sentimos um vazio, ou quando sofremos, nos afastamos do dharma e passamos a viver o karma na sua forma mais grosseira.


11 Exemplos de sankalpa para você usar:

"desperto minha kuṇḍalinī"
"tenho ótima memória"
"tenho confiança em mim"
"sou confiante"
"sou saudável"
"desenvolvo o meu potencial"
"sou forte"
"sou perfeito"
"minha saúde é perfeita"
"me aceito plenamente"
"sou capaz de realizar tudo o que quiser"


Resumo de Saṅkalpa:
• Afirmativa;
• Positiva;
• no Presente;
• Verdadeira;
• Sintética.

A origem do Saṅkalpa se perde no tempo, contudo ela pode ser rastreada pouco antes dos vedas, embora haja muta discussão acerca disso, o que temos de mais concreto é que o conceito de Saṅkalpa era bem conhecido pelos Ṛṣis vedicos, mas com certeza absoluta é anterior a criação do Yoga, e postrior a isso, antes mesmo da época do Vedānta (junto com o Yoga, o Vedānta uma das seis escolas āstika da filosofia hindu)[1] se basear num YogaŚāstra para sua fundamentação[2], por exemplo o Sandhyāvandanam inclui Saṅkalpa e Japa Saṅkalpa como partes do seu ritual. Tendo como outro exemplo de citações ao Saṅkalpa no Ṛg Veda, onde māyā, significava tanto a sabedoria do poder misterioso da vontade (Saṅkalpa-Śakti) que faz com que os deuses criem tanto o esplendor dos mundos fenomenais, quanto os ilusórios como realizadores que carecem de uma certa certeza ou grau de realidade.[3]

Existem também algumas citações na Chāndogya Upaniṣad (1400 AEC) falando sobre o poder onipresente da vontade, Sānatkumāra, o mais velho dos progenitores da humanidade chamado (séculos depois) no Mahābhārata de: “o mais velho nascido de Brahman”[4] identificado como Skanda na Chāndogya Upaniṣad, foi o professor do Sábio Nārada. Para estabelecer a primazia da vontade, ele diz a Nārada: “A vontade é maior que a mente. Pois quando as vontades se refletem, então ele a pronuncia em Fala, depois a pronuncia em Nome. No Nome, os mantras se tornam um; e nos mantras, os sacrifícios se tornam um” (VII.iv.1).[5] Embora no passado distante haja referência ao termo Saṅkalpa, ele passou por várias transformações em seu sentido, até ser usado no yoga como uma ferramenta para construir a vontade.

Esse conceito acompanhou o Yoga desde a Bhagavad Gītā (700 AEC) até sua elaboração na Śvetāśvatara Upaniṣad no sec. VI AEC[6] e foi fortemente difundido pelo movimento Śramaṇico.[7]

Por exemplo na Bhagavad Gītā, Saṅkalpa tem o sentido de um “forte desejo matertial” e é visto como obstáculo[8], e o mesmo acontece no Yoga Vāsiṣṭha, nessa obra[9] Lord Rāma queria saber sobre a natureza da mente que é conhecida como Saṅkalpa, habitando no corpo, inerte e sem uma forma independente. Aqui Saṅkalpa significa pensamento, que é a imaginação de uma situação como agradável ou dolorosa que leva ao comportamento de desejo ou aversão. Ṛṣi Vāsiṣṭha explicou que o inimigo que é a mente quando se movimenta em virtude de um mero Saṅkalpa, ou seja, o pensamento, ele precisa ser destruído para libertar a mente para dissipar a ilusão, e acabar com todas as formas de miséria e experimentar a felicidade.[10]

Contudo o termo evoluiu para ganhar o sentido atual, aos poucos passou a ter forma na estrutura do que é chamado de yoga moderno.

No Sistema do Yoga, Saṅkalpa é o precursor de qualquer tapas. Para alcançar um objetivo específico, é necessária uma resolução igualmente específica na forma de tapas, que deve acompanhar um Saṅkalpa. A prática diária de Saṅkalpa Mudrā é recomendada para tornar essa resolução firme e específica. Então o corpo e a mente ficam carregados com ondas especiais que tornam a pessoa autoconfiante, resoluta e motivada.[11]

Śrī Svāmī Śivānanda Sarasvatī frequentemente utilizava o Saṅkalpa em suas práticas, inclusive ele elencou 18 “itys” para um yogina fazer um Saṅkalpa. São eles: Serenidade, regularidade, modéstia, sinceridade, simplicidade, veracidade, equanimidade, estabilidade, paciência, adaptabilidade, humildade, tenacidade, integridade, nobreza, magnanimidade, caridade, generosidade, pureza.

Śivānanda recomenda que cada mês você deve praticar um ‘ity’. Se você puder viver cada um deles, durante dezoito meses, você ganhará algo inestimável em sua vida. Quem sabe, talvez, o amṛta pūrṇa (a imortalidade plena). Entretanto quem mais popularizou o conceito de Saṅkalpa, foi Śrī Svāmī Satyānanda Sarasvatī, discípulo direto de Svāmī Śivānanda, ele acrescentou conceitos do tantrismo (Gaṇeśa Mātrikā Nyāsa) ao criar na década de 1970 a técnica chamada Yoga-Nidrā. Satyānanda dizia: “Qualquer coisa na vida pode falhar, lhes asseguro, porém, não o juramento ou resolução (Saṅkalpa) que se faz antes e depois de uma Yoganidrā bem executada”.[12]

O Dr. Rajaiah também diz, que a prática da Yoganidrā, permite que o Saṅkalpa se aprofunde na própria psique. Saṅkalpa é um chamado ao despertar. Torna alguém capaz de dirigir a consciência através dos cakras.[13]

O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino.
Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad


Notas:

[1] Sendo muito conservador situamos os Brahma Sūtras compostos por Badarayana entre 300 AEC e 200 EC. O historiador Isaeva sugere que eles estavam completos e na forma atual em 200 da era comum, N.V. Isaeva (1992), Shankara and Indian Philosophy, State University of New York Press, ISBN 978-0-7914-1281-7, Pág. 36

[2] As Upaniṣads, a Bhagavad Gītā e os Brahma Sūtras constituem a base do Vedānta. Todas as escolas do Vedānta propõem sua filosofia interpretando esses textos, chamados coletivamente de Prasthānatrayi (as três fontes), 1) As Upaniṣads, ou Utiruti Prasthāna; considerado o Śruti (clariaudiência), o fundamento de tradição oral do Vedānta. 2) Os Brahma Sūtras, ou Nyaya Prasthāna; considerada a base fundamentada do Vedānta. 3) A Bhagavad Gītā, ou Smṛti Prasthāna; considerada a fundação Smṛti (memória) do Yoga.

[3] Vensus A. George (2001-01-01). Brahmānubhava. CRVP. Pág. 86. ISBN 9781565181540.

[4] Elizabeth Clare Prophet (1990-01-01). Maitreya na imagem de Deus.
Imprensa da universidade da cimeira. Pág. 73. ISBN 9780916766955 .

[5] Ādi Śaṅkara. Comentário sobre a Chāndogya Upaniṣad. V.S. Seshachari. Pág. 173

[6] Barbosa, Carlos Eduardo G. - "Damos por aceitável a época de 700 AEC para a composição básica da Gītā no que diz respeito ao seu conteúdo como um tratado de yoga" Bhagavad Gītā / Kṛṣṇa Dvaipayana Vyāsa 1a. edição 2018 - Capítulo sobre a datação da Gītā - Pág. 11,12,13 - Editora mantra, ISBN 978-85-68871-10-2. Nota do André De Rose Os historiadores costumam colocar hoje a datação da Bhagavad Gītā como anterior ao Mahā Bhārata cuja composição final foi em 600 EC. Ou seja, mais de um milênio separam ambos os textos. Contudo, devemos considerar que essa foi a sua forma final. E que a maioria dos historiadores indicam que sua composição teria começado antes da era comum (AEC), diminuindo esse abismo para alguns séculos entre os dois textos. Os historiadores também (principalmente os indianos), classificam a Bhagavad Gītā como um itihāsa (documento histórico), já os Yoginas o definem como um Yoga Śāstra.

[7] Os movimentos Śramaṇicos surgiram nos mesmos círculos que levaram ao desenvolvimento de práticas de Yoga na Índia antiga. Um dos primeiros registros aos Śramaṇas, está no verso 4.3.22 da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, composto aproximadamente no século VIII AEC. Influenciou profundamente os conceitos populares em todas as principais religiões indianas, consideravam o saṃsāra (o ciclo de nascimento e morte) cheio de sofrimento (dukha) e viam mokṣa (libertação ‘desse ciclo’) o renascimento, como algo indesejável. Embora tenha nascido no berço dos vedas o shramanismo era um movimento não-vedico paralelo ao hinduísmo vedico na Índia antiga. Deu origem ao Jainismo, Ājīvikas, Ajñanas, Cārvākas, Buddhismo, Yoga entre outros. Sendo responsável pelo questionamento da dualidade no Vedānta, derrubando os argumentos de unidade ao expor māyā e Brahma como uma dualidade implicita. fazendo surgir dois movimentos, um chamado dvaita Vedānta e outro advaita Vedānta. Os Śramaṇas, enfatizam o pensamento, o trabalho duro e a disciplina, sendo o shramanismo uma das três vertentes do pensamento hindu. A segunda é o brahmanismo, que extraiu sua essência filosófica de mīmāṃsā, e por último terceira, e mais popular vertente do pensamento filosófico indiano, gira em torno do conceito de Bhakti devoção ou teísmo, baseado na idéia de Deus, como entendida na maior parte do mundo. Os Śramaṇicos estavam sempre em contraposição aos vedicos, que acreditam na eficácia do ritual sacrificial, realizados por um grupo privilegiado de pessoas, que poderiam melhorar sua vida agradando aos deuses.
Distinções de crenças e conceitos dos Śramaṇicos em relação aos demais:
Negação de um Deus criador e onipotente, negação dos Vedas como textos revelados, negação da eficácia de sacrifícios e rituais de purificação, negação do sistema de castas, afirmação do karma e renascimento, saṃsāra e transmigração da alma, afirmação da conquista de mokṣa através de ahimsa, renúncia e austeridades.

[8] Bhagavad Gītā Capítulo 6 “o uso do Sankhya” verso 4 “Quando (ele) não está preso aos objetos dos sentidos ou às ações, tendo renunciado a todas as intenções, se diz que (esse) é aquele que já se elevou pelo Yoga”.
Bhagavad Gītā Capítulo 6 “o uso do Sankhya” verso 24 “Tendo abandonado todos os desejos oriundos de fantasias, sem exceção, tendo conquistado completamente com a mente o conjunto dos sentidos,”

[9] O Yoga Vāsiṣṭha é um texto filosófico atribuído a Valmiki. O texto completo Bṛhat Yoga Vāsiṣṭha contém mais de 29.000 versos. A versão curta do texto é chamada Laghu Yoga Vāsiṣṭha e contém 6.000 versos.

[10] O Yoga-Vāsiṣṭha. Sura Books. 2003. pp. 148, 166, 175. ISBN 9788188157006.

[11] Rajni Kant Upadhayay (01/05/2002). Mudra Vigyan (Mudrā Vijñāna). Diamond Pocket Books. Pág. 35. ISBN 9788171827022 .

[12] texto retirado do livro Yog-Nidrā do Śrī Svāmī Satyānanda. ISBN-13: 978-8185787121 ISBN-10: 8185787123

[13] Dr. B. Rajaiah. Yoga Nidrā. Editora Sanbun Publishers. Pág. 19. ISBN 8189540580, 9788189540586.

Tradução
सङ्कल्प - masc. saṅkalpa, resolução, desejo, ato solene, concepção, ideia ou noção formada na mente ou no coração, determinação, convicção, intenção, proposta, desejo de, intenção, sentimento, decisão, a vontade personificada.

Instrutor: André De Rose