Receba nosso informativo:

ARTIGOS

Como reconhecer um verdadeiro yogi?

Instrutor: Juliana Barbosa Matos Santos

Como reconhecer um yogi?

Arjuna, na Bhagavad Gita, pergunta ao seu guru, Sri Krishna, quais são as características do sábio, do yogi? Como ele fala, senta e caminha?
Essa é uma pergunta de muitos praticantes de Yoga, e um assunto que dá margem a muitas histórias engraçadas entre os yogis e estudantes de Vedanta.

O yogi é um mumukṣutvam, ou seja, é aquele que possui mokṣa como mukhya sādhya, o objetivo principal da vida.
Sua vida é moldada para que ele alcance o entendimento de si mesmo, de quem EU SOU, do ser livre de limitações. Sua busca é pelo autoconhecimento.
É aquele que leva uma vida de Yoga

Mas o que é uma vida de Yoga?

Muito romantismo existe atualmente em torno de uma vida de Yoga, mas de acordo com a tradição, é basicamente viver a vida com atenção em si mesmo, em sua mente, em suas ações e reações. E para que possamos nos manter atentos, é preciso um certo controle da mente, que adquirimos com a meditação diária.
Através da meditação, passamos a gerenciar a nossa mente, conduzindo-a para que ela não se perca e não se identifique com as emoções.
O ser humano é um ser emocional, desta forma as emoções sempre existirão. Mas o que fazemos com a emoção que surge, depende de como estamos lidando com a nossa mente.
Nesse caminho, o objetivo é o entendimento de que somos livres de limitação, sendo então necessário um reconhecimento de si mesmo, e isso só é possível através do estudo e da meditação que prepara a mente para o conhecimento.

E aí voltamos à pergunta inicial? Como podemos reconhecer um verdadeiro yogi?

Entendemos que o yogi busca o entendimento do EU livre de limitações. Quando ele alcança esse entendimento, ele provavelmente não vai fazer questão de mostrar pra ninguém. Se ele fizer isso, é porque ainda está movido pelo ego físico.
Somente com a convivência você perceberá que está diante de alguém especial, que desenvolveu características diferentes do que a maioria dos seres humanos possuem. Mas essas características só podem ser comprovadas se você convive com essa pessoa, do contrário, você pode estar enganado.

Conhecimento intelectual não é garantia do conhecimento do EU.
O conhecimento do EU não pode ser medido através do conhecimento intelectual. Cursos, palavras bonitas, recitação de versos vedicos, canto de mantras... nada disso é prova do entendimento do EU.
Nosso professor Vitor Arieira conta que um aluno vai até o Swami Dayananda e diz que estudou todas as Upanishads, e que sabe todos os cantos vedicos, então que ele é um sábio.
Swamiji diz: de todos esses textos, qual deles você realmente entendeu, absorveu e colocou na sua vida?

As características a seguir não são garantia de que alguém seja realmente um yogi:

1. usar roupas indianas, hippies, turbantes;
2. falar com o tom de voz alterado, calmo demais ou de forma teatral;
3. fazer todos os cursos e estudar todos os textos vedicos;
4. ser um professor de Yoga;
5. ter ido à India;
6. ver luzes, imagens.

1. O yogi entende que jagat mithyā, aham satyam. O universo é relativo, só o EU é a verdade.

A realidade relativa não deixa de ser uma realidade, mas não é absoluta. Diante disso, a matéria possui sua importância, mas não é motivo para muitas preocupações. Somos atores nesse filme cósmico e o ator sabe que não é o personagem.
Ter uma aparencia saudável e limpa, externa e internamente, são suficientes.

2. O yogi quando vai se comunicar, deseja se fazer ser entendido. Se ele precisar falar alto, baixo ou utilizar alguma forma específica para se comunicar, o seu objetivo sempre será o de se fazer ser entendido.

3. O yogi possui valor pelo estudo. Ele entende que é essencial em uma vida de Yoga. Sem o estudo, não existe o entendimento do que se busca e tudo se torna muito vago.
No entanto ele entende que o conhecimento não está relacionado à quantidade de cursos que se faz e sim de uma mente preparada para receber o conhecimento.
Eu só posso entender algo se a minha mente está apta a receber aquele conhecimento. Imagine uma criança que se alfabetizou e sabe todos os números. Ela sabe também somar. Mas se você tentar ensinar a ela uma equação, ela não aprenderá. Porque sua mente não está preparada para aquele conhecimento. Apesar de ela entender a lingua do professor, de conhecer os números... ainda assim, o conhecimento da equação se torna impossível naquele momento.

4. Na tradição, um sábio se torna professor por uma consequencia de sua vida de Yoga. Ele estudou, entendeu e então está apto a passar o conhecimento. Na linha dos Swamis de Shankara, nem todos ensinam. Cada um entende seu papel e o desempenha com alegria.
Infelizmente no Ocidente existem milhares de cursos de formação de professores de Yoga que não ensinam o que é realmente Yoga e como ter uma vida de Yoga.
Muitos destes cursos são interessantes, oferecem algum ensinamento correto, vivências, técnicas de limpeza energética, momentos de diversão e amizade. O problema é que muitos deles utilizam técnicas aprendidas de forma não tradicional, retiradas dos textos vedicos. Os professores destes cursos não aprenderam as técnicas utilizadas com um professor tradicional e desta forma, cometem erros e enganos, que acabam transmitindo aos seus alunos.
Um professor tradicional recebeu o conhecimento de seu professor, que aprendeu com o professor dele.. e assim por diante. No nosso caso, estamos na linhagem de Adi Shankaracharya, que foi então o primeiro professor.

5. O yogi não precisa ir a nenhum local para obter o conhecimento do EU. Ter ido à India não é garantia de conhecimento. Pode proporcionar vivências especiais, mas você não vai se iluminar na beira do Ganges! rs

6. Alguns professores acreditam que o samadhi é ver luzes, imagens, cenas interessantes...
Ter essas experiências pode ser muito agradável e mostrar que você entrou em um estado alterado de consciência.
Mas o objetivo do yogi é o samadhi, e por fim, moksa.

A confusão existe por falta de entendimento do que é samadhi.

Samadhi é união do meditador com o objeto de meditação. O que é meditação e qual é o objeto da meditação? Saguṇa Brahman Viṣaya Mānasa Vyāpārah - a meditação é uma atividade mental onde o objeto é īśvara. īśvara é a causa material e inteligente deste jagat. Sendo assim, você é īśvara, eu sou īśvara... ekam sat: todos somos UM.
O objeto da meditação então é o EU livre de limitação. Unindo meditador e objeto da meditação, acontece o reconhecimento de que não somos este corpo físico e de que somos ātman, o ser livre de limitações. Nos samadhis iniciais acontece este reconhecimento claro de que não somos o corpo físico e de que estamos apenas desempenhando alguns papéis nesse filme cósmico.

Nesse momento, com a clareza de entendimento, mesmo que temporária, a respiração não é mais necessária, nem o funcionamento do corpo como um todo.
Se reconhecendo como um ser LIVRE DE LIMITAÇÕES, não existe mais a identificação com a matéria, com esse corpo que precisa respirar para viver. E podemos então nos sentir libertos da matéria, primeiro por alguns momentos, e depois, com a força de vontade e disciplina - seguindo os ensinamentos do mestre - alcançamos então o entendimento sem qualquer oscilação, e aí nos tornamos JIVANMUKTAS, libertos, mas ainda com o corpo físico (jiva)
Em nirbikalpa samadhi o yogi pode então visualizar o universo como realmente é, e consegue viver entre nós em um samadhi constante. Ele possui um controle completo sobre a matéria, porque ele se reconhece agora como o ser livre de limitações.
Esse estado é avançado e alcançado somente por aqueles que possuem certas características expostas nos textos vedicos.

Os mestres tradicionais não dão TANTA importância PARA luzes, cenas SEM MUITO SENTIDO... Tudo isso é interessante, mas pode ser uma distração da própria mente.
uMA VISÃO COM A QUALIDADE DE PREMONIÇÃO É APRECIADA, MAS ISSO TAMBÉM NÃO É UM SAMADHI.

Swami Dayananda Saraswati dizia que se ele quisesse chamar a atenção, andaria como se estivesse flutuando, deslizando e escondendo seus pés sob a roupa de swami... e ainda completaria a cena, fazendo caras e bocas rs.

Todos os sábios sabem que certas práticas de Yoga e de controle da mente podem despertar os siddhis, que são os poderes adquiridos através de alguma disciplina, técnica, mantra...

Paramahansa Yogananda em sua obra Autobiografia de um Iogue, apresenta vários siddhas que viviam na India em sua época. Mas ensina que o yogi não se prende aos poderes e não quer parecer melhor do que os outros. Assim como o sábio menino Naciketas - que nega todos os benefícios oferecidos por Yama - o verdadeiro yogi aprende a conviver com certas qualidades que ganha através de sua vida de Yoga, mas não se deixa envolver, lembrando sempre que jagat mithyā, aham satyam.

Dando continuidade a esse tema, a partir do próximo texto, falaremos sobre as qualidades que a mente de um yogi deve possuir, valores que devem estar presentes para que a mente do buscador esteja preparada para o conhecimento do Ser.

para leitura, recomendo os livros de Swami Dayananda Saraswati, muitos deles traduzidos pela professora Gloriaji. E os livros e curso deixado por Paramahansa Yogananda, que possui duração de oito anos aproximadamente (Yogoda Satsang Society of India/Self Realization Fellowship)

se quiser entender mais sobre yoga em um curso presencial, inscreva-se para a nossa próxima turma de formação e aprofundamento em yoga (www.yogapranava.com)

Bons estudos!

Om Tat Sat.

Instrutor: Juliana Matos