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ARTIGOS

Os Fundamentos da Prática de Yoga

Instrutor: SUSANA SEIDL

O Yoga Sutra é uma fonte inquestionável para a prática de Yoga, embora algumas linhas e/ou escolas de Yoga lhe atribuam vários comentários e diversas interpretações, a sua essência permanece. Neste primeiro capítulo o Yoga é definido como a habilidade de direcionar a mente sem distração ou interrupção. O Yoga Sutra é abrangente e ao mesmo tempo profundo, pois trata das questões ligadas à mente, onde não impõe nenhum tipo de crença e tão pouco rechaça aqueles que a tem. Por isso o Yoga Sutra torna o Yoga mais compreensível do que em outros textos e possibilita à pessoa tornar-se mais produtiva e centrada.

A maneira como o indivíduo percebe o mundo a sua volta explica porque sempre encontra dificuldades na vida. Muitas vezes a visão que tem de uma determinada situação revela-se equivocada. Ele achava que estava certo e assim agiu para descobrir mais tarde que estava enganado e que a ação perpetrada por ele redundou em danos a si mesmo e aos outros. O contrário também é verdadeiro. O indivíduo pode duvidar e achar que não compreendeu a situação, mas na verdade estava certo. Na dúvida não agiu quando fazê-lo seria benéfico. O Yoga Sutra define tudo isto como avidya – a compreensão incorreta ou uma falsa compreensão ou ainda uma incompreensão ou simplesmente a ignorância com uma conotação mais profunda. Avidya tem profundas raízes no ser humano e tem haver com suas ações inconscientes que carrega ao longo da vida. À medida que estas ações inconscientes são executadas transformam-se em hábitos e a mente vai se tornando dependente deles. São as marcas que o indivíduo traz consigo e que são chamados de samskara-s no Yoga Sutra. São elas que encobrem a mente com uma fina camada ou véu onde a clareza da consciência fica obscurecida. O objetivo do Yoga é reduzir avidya para que ação do indivíduo seja a mais correta possível. Avidya nunca se expressa como ela mesma, por isso quase nunca nos damos conta quando ela está por perto. É mais fácil percebê-la nas suas ramificações que, juntas ou separadas, obscurecem a percepção do indivíduo. Em asmitā o indivíduo se considera melhor que seus semelhantes e as noções de EU afloram com mais intensidade. Em rāga a insatisfação é generalizada, o indivíduo procura saciar de alguma forma seus desejos e as noções de MEU afloram também com muita intensidade. Dveṣ a é o oposto de ragā e tem a ver com situações que o indivíduo viveu e não quer repetir ou ainda coisas desconhecidas e que aparentemente não lhe fariam nenhum mal e que não lhe são familiares, ou seja, aqui o indivíduo vivencia é a aversão ou a rejeição. Abhiveśa é o aspecto mais secreto de avidya, pois inclui todos os tipos de medo e que estão muito presentes em nosso cotidiano. Sempre que o indivíduo se sentir em paz, sem inquietação ou agitação avidya estará ausente, do contrário, estando presente apresentará todos os sintomas descritos acima. Os altos e baixos em nossas vidas sempre existirão e avidya determinará o grau e a intensidade deles e também nosso progresso.

Nossa realidade é criada a partir da atenção que colocamos nas coisas. Tudo que experimentamos, sentimos e vemos até mesmo nossos sonhos e fantasias são uma realidade.

Este é o conceito de sātvada. Mas toda esta realidade está em constante movimento ou em um estado de mudança contínuo e que é chamado de parināmavāda. Tudo que vivemos, experimentamos ou sentimos ontem serão vivenciadas hoje de uma forma completamente diferente. Por isso a recomendação de praticar Yoga com regularidade ensina-nos que quanto mais atentos e presentes estivermos mais distantes ficaremos de avidya e também de suas ramificações.

Há algo de muito profundo e muito real que habita em nós e que não está sujeito a mudanças. Trata-se do puruṣa – aquele que vê ou aquele que pode ver corretamente. A prática de Yoga nos leva a um estado de quietude e paz profundas e é nessas horas que a compreensão correta se manifesta. Mas isso não ocorre de forma espontânea, porque o corpo e também a mente tem seus próprios padrões de percepção que vão mudando gradualmente com a prática do Yoga. Para remover ou afastar avidya o Yoga Sutra nos contempla com três elementos: tapas ou tapah é o meio pelo qual podemos nos tornar mais saudáveis fazendo uma limpeza interna e basicamente é a prática de āsana e prānāyāma; svādyaya é o meio pelo qual podemos conhecer a nós mesmos. Não é uma tarefa fácil; e, īśvārapraṇidhāna é a qualidade na execução da ação, mas também é atribuído como “amor a Deus”. Manter-se saudável, refletir sobre si mesmo e procurar executar suas ações da melhor forma possível é o que a prática do Yoga pode proporcionar, mas o indivíduo não vive apenas disso. Necessita também trabalhar, sustentar-se, obter qualificações em suma levar uma vida normal, mas sempre procurando fazer as coisas da melhor forma possível e mesmo assim nunca poderá ter plena certeza do fruto de suas ações. O importante é ter uma certa dose de desprendimento quanto às expectativas e sempre uma maior atenção na execução e na qualidade de suas ações, isso deve ser estendido também para a forma como pensamos, sentimos e nos expressamos. Quando saúde, estudo e qualidade nas ações, pensamento e emoções estiverem presentes a chance de cometer erros será muito menor. Estes três aspectos formam o espectro do empenho humano e no Yoga Sutra é chamado de kṛiyāyoga que é o ramo prático do Yoga e é através dessas três áreas que podemos conquistar o estado de Ser que nos leva a fazer as mudanças necessárias em nossas vidas para que possamos viver mais e melhor. E é também neste tripé que as possibilidades de redução de avidya podem acontecer.

Fonte para redação do texto: O coração do Yoga de T.K.V. Deshikachaar

Instrutor: Susana Seidl