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ARTIGOS

OS NOVE OBSTÁCULOS NO CAMINHO DO YOGA

Instrutor: SUSANA SEIDL

São nove obstáculos – os antaraya-s descritos por Patañjali no verso 30 do primeiro capítulo do Yoga Sutra que impedem que os estados naturais da mente possam aflorar como: a concentração – dhāranā; o foco contínuo em um determinado objeto, a meditação – dhyāna e a fusão ou união com este objeto e que se traduz por um estado mais profundo e elevado de consciência– samādhi. Embora estes estados naturais da mente possam aflorar espontaneamente, na maior parte do tempo o aluno é atrapalhado em sua jornada pelos antaraya-s.

Vyādhi – a doença – é o primeiro obstáculo enunciado por Patañjali para quem deseja praticar ou encontrar o estado de Yoga.

Jástyāna – a letargia e a sensação de peso podem paralisar a pessoa. Ela poderá ter momentos em que se sente bem e outros não tão bem. De qualquer modo sempre se sujeitará aos seus próprios humores. Isso pode vir de seus hábitos alimentares, do clima frio ou da natureza de sua mente.

Samśaya – é a dúvida que pode minar o progresso daquele que decide trilhar o caminho do yoga e que pode se traduzir em um persistente e habitual sentimento de incerteza onde o aluno simplesmente fica indeciso, não sabe que rumo tomar ou o que fazer.

Pramāda – denota pressa, impaciência e falta de cuidado onde tudo é feito sem reflexão e sem a devida análise comprometendo a energia que poderia ser melhor utilizada na prática em si e na vida da pessoa.

Ālasya – é um sério obstáculo à prática de yoga e se define pela falta de entusiasmo e motivação, o desânimo, a fadiga, a preguiça. Não há aqui a energia necessária para superação das dificuldades que fazem parte do caminho e a pessoa tende a achar que não foi talhada para isso, para o yoga ou para qualquer outra coisa em sua vida e se resigna com sua própria sorte.

Avirati – é a distração onde os sentidos tomam as rédeas da vida da pessoa. Isso é tão sério que a pessoa muitas vezes não se dá conta que os sentidos assumiram o comando, pois desde muito cedo o ser humano é condicionado a voltar-se para fora: olhando, cheirando, degustando, tocando, ouvindo. E assim pode perder a noção de si própria, ser manipulada pelos sentidos, pela mente e até por outras pessoas e também pela mídia. Tudo isso contribui para desviar sua atenção daquilo que realmente é importante.

Bhrāntidarśana – se caracteriza pela arrogância e ignorância. Juntas formam o maior e mais perigoso dos obstáculos porque a pessoa se julga muito “senhora de si” e achaque sabe tudo, que encontrou o que tanto procurava, que encontrou a verdade.Mas o que experimentou foi apenas um pouco de tranquilidade que lhe fez parecer que tinha alcançado o topo, mas era tudo ilusão, pois o caminho de descobertas na trilha do yoga é infinito, é para sempre e no campo do yoga assim como na vida o terreno é acidentado, tem seus altos e baixos, mas nem todos são capazes de ter esta percepção.

Alabdhabhūmikatva – é quando percebemos que tropeçamos no caminho, justamente quando se achava que o progresso já havia sido alcançado e percebe-se que há ainda muito a fazer. Deste modo o humor da pessoa se torna instável e ela pensa em desistir e não vê possibilidade de dar um novo passo, não dá a si mesma uma segunda e nova chance.

Anavasthitatvāni – é a perda da confiança. Quando a pessoa se dá conta que se iludiu e vê a realidade nua e crua ela perde a confiança. É como chegar ao determinado patamar na prática ou em qualquer área de sua vida e não ser capaz de sustentá-lo.

O aluno não encontrará os obstáculos nesta ordem e nem todos eles estarão presentes em sua jornada. O importante é perceber que não sabemos tudo, mas que estamos aprendendo enquanto empreendemos a caminhada. Pensando assim com certeza seremos melhores do que somos hoje. É imprescindível que tenhamos um guia que nos oriente nesta caminhada e que possamos estreitar os laços que unem professor e aluno. Se tivermos um professor e uma direção isso será de grande ajuda na identificação e nos meios que teremos que utilizar para eliminar ou contornar estes obstáculos. Há diversas maneiras para trazer a mente a um estado de serenidade.

Através do prānāyāma principalmente e se dermos ênfase a expiração longa e tranquila com uma pequena pausa. Outra maneira é investigar, refletir sobre o papel dos sentidos a fim de tranquilizara mente e nos conhecermos melhor. Estudar o conceito de puruṣa através das escrituras sagradas que nos indicam que ele se localiza no coração na forma de um pequeno botão de flor de lótus. Assim a mente também pode se tornar ainda mais tranquila e pacífica. Conhecer a história de vida de algumas pessoas que superam o sofrimento é uma forma de aprender como elas fizeram isso e toma-las como exemplo. Ao observamos as divindades nos templos podemos refletir sobre seus significados, como o templo foi construído, podemos aprender muito com isso porque por trás destas coisas sempre houve pessoas que se dedicaram para que outros pudessem apreciá-las e mesmo reverenciá-las. Quando estamos confusos e agitados o ideal é procurarmos dentro de nós mesmos as reais causas de nos sentirmos assim. Podemos investigar os sonhos e seus significados. Uma maneira muito eficaz de tranquilizar a mente é recitar em forma de japa (repetição) algum mantra baseando a meditação em algum tipo de divindade. Podemos também estudar o significada da divindade escolhida, assim o foco fica mais forte enos prepara para dhyāna (meditação). Podemos escolher qualquer objeto que nos facilite o acesso à meditação. Ele deve ser agradável e proporcionar tranquilidade ao invés de distração.

O método mais eficaz para remoção dos obstáculos é īśvarapraṇidhānā que consiste em nos entregarmos a algo mais profundo e elevado acreditando firmemente que isto nos ajudará. Algumas pessoas entenderão isso como Deus. Īśvara é a fonte e o apoio, é o primeiro e o melhor dos professores. É o Professor dos professores, é o professor daqueles que vieram antes. Não tem forma, não pertence ao reino da matéria – prakṛti e nem do puruṣa – àquele que em nós vê e por isso não está sujeito à avidya (ignorância). Para que se estabeleça contato com este Ser Extraordinário que tudo sabe e tudo percebe há um símbolo que o representa. É o OM e que no Yoga Sutra é definido por Patañjali como pranava. Quando o som do OM se une ao conceito de Īśvara na mente do aluno este terá a oportunidade de se tornar mais sereno e terá dado mais um passo no caminho do Yoga. No OM há um significado profundo e se colocarmos a atenção em cada letra na medida em que o recitamos perceberemos que as quatro letras que o formam: A(criação),U(continuidade e renovação da criação), M(dissolução) mais o som que se segue após a recitação perceberemos quem é que está por trás de tudo. Quem está por trás de tudo é o único DESPERTO, ou seja, īśvara o sempre desperto e vigilante, não sonha, não dorme, aquele que conhece tudo, sabe tudo e está além de tudo. E quando estivermos imersos em Īśvara estaremos completamente estáveis e tranquilos. Esta é a forma mais poderosa de dissipar os obstáculos e continuar na caminhada como seres humanos íntegros e completos.


Fonte PARA REDAÇÃO DO TEXTO: O Coração do Yoga de T.K.V Deshikachar

Instrutor: Susana Seidl